sábado, 28 de abril de 2012

Felicidade

Voltar para o palco do Cine-Teatro Ópera, depois de tantos anos, foi realmente muito emocionante.
Cercado de grandes músicos - Marcelo Teixeira no violão de sete cordas, Marcelo Hilgenberg no bandolim, Luciano Guerini na guitarra e Iê dos Santos no pandeiro - e com um público maravilhoso cantando juntos, isso tudo me deixou muito feliz. 
Crédito da imagem: Luana Caroline do Nascimento, projeto Lente Quente http://www.flickr.com/photos/lentequente/

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Auto-entrevista de desnudamento psicológico

Fiz uma auto-entrevista. Achei pertinente publicá-la como a postagem de número 99 destes Caldos de Cana. Espero que não achem muito egocêntrica, e que possa inspirar a quem ler.  


Primeiramente, o que te inspira a escrever?
A história é curiosa. Eu gosto de escrever, e apesar de ser um bom escritor no computador, sempre gosto de escrever em papel. Algo como uma fonte de ideias que posteriormente possam se transformar em postagens, ou em textos a ser publicados e distribuídos, pelas redes sociais, pelos meios eletrônicos. Também gosto de ver minha letra manuscrita, acho bonito. Eu encontro um grande prazer quando, ao longo do tempo, vejo meus caderninhos sem pauta e com capa dura, aos poucos serem preenchidos com letrinhas, histórias, e mais ainda, quando eu os vejo completos. De certa forma, a escrita é algo como a “vaidade de quem escreve”, aquela ideia do Mário de Andrade, de que todo mundo que escreve, o faz por vaidade. E é por vaidade que um escritor mostra ou esconde o que escreve. Então, posso dizer que o que realmente me inspira a escrever é a vaidade.
Você já tem uns 7 cadernos escritos, ao longo de 10 anos. Por que não os organiza de alguma maneira, num romance, num roteiro ou num livro de contos, por exemplo?
De certo modo, eu me sinto em uma encruzilhada, quando leio tudo o que já escrevi ao longo da minha vida. Minha escrita é de alguma forma algo que uso como instrumento para dar vazão aos meus sonhos. Eu tenho sonhos intensos, coloridos, alegóricos, com enredos malucos. Dariam bons filmes de Fellini ou Buñuel, por exemplo. Então, eu tento, com meus escritos, de algum modo compreender a intensidade destas imagens oníricas que me acompanham, e espero que isso me ajude, primeiramente, a me definir como pessoa e me ajude a lutar contra o ostracismo, me permita realizar ações menos estúpidas, mais inteligentes. Às vezes, eu cometo inumeráveis besteiras, uma atrás da outra, exatamente porque eu tenho um comportamento sanguíneo, descontrolado. Eu não controlo muito bem meus impulsos. Por um lado, eu gosto disso, mas por outro, isso me traz conseqüências com as quais eu tenho que lidar, inclusive psicologicamente. De repente, escrever é uma maneira de organizar a bagunça. Talvez seja só uma desculpa esfarrapada. Mas eu sempre estou pronto para um grande acontecimento, uma grande transformação, uma mudança radical que me permita desenvolver plenamente meus talentos escondidos e reprimidos – se é que tenho algum talento que valha a pena. Escrever é uma forma de definir e separar o que me faz bem do que me faz mal. Talvez por isso não tenha chegado a hora ainda de expor tudo o que escrevi. Quem sabe nunca chegue. Eu queria ter um Max Brod, uma amigo a quem eu ordenasse, na hora da morte, que queimasse tudo o que escrevi. Só que eu queria que, ao contrário do amigo de Kafka, que meu Max Brod realmente pusesse fogo em tudo.
Você fala que está em luta, que quer definições. O que você espera encontrar?
Estou em luta contra a quantidade enorme e absurda de burrice que nos cerca. Luto contra minha própria burrice, e contra meu próprio egocentrismo e arrogância. Por vezes, me sinto isolado, sozinho, porque de um lado, me recuso a fazer parte da coletividade burra  a nossa volta, e afinal, eu sou apenas aquilo que sou. Mas não tem jeito, ninguém vive isolado. A carta do Tarô de Marselha “O Enforcado” fala sobre aquele personagem cujas ideias e sentimentos são tão diferentes do senso comum que, exatamente por isso, acaba sendo enviado à solitária, à masmorra, ao cadafalso. Por outro lado, o aprendizado nos torna sempre melhores, melhores amigos, melhores amantes, melhores filhos, melhores pais. Então, o tarô de Marselha nos ensina que nunca estamos presos a nada, a uma mesma carta, a uma mesma característica. O principal ensinamento junguiano que podemos encontrar no Tarô de Marselha é justamente que, assim como as cartas de um baralho, a vida está em movimento, e nunca é igual. Tudo muda o tempo todo. O autoconhecimento é importante para que possamos perceber onde estamos e para onde queremos ir, de verdade. Ninguém vive pra sempre, mas eu tenho a intuição de que minha estrada é longa, e eu tenho grande força interior, o que me impede de ser derrotado. A questão é justamente reconhecer a força que temos, dominá-la, usá-la em seu próprio benefício. O fortalecimento intelectual e espiritual é fundamental para isso. Não gosto de páginas em branco, seja em cadernos sem pauta, seja na vida.
Qual é o papel do inconsciente nisso tudo?
Eu preciso me resolver com meu inconsciente, e de alguma maneira, passar a compreender plenamente o que ele está me indicando. Por que sonhar tanto com coisas que passaram? Por que sempre a mesma sensação, nem desagradável, nem agradável, que me acompanha em muitos dos meus sonhos em que meus atos surgem como fantasmas que me atormentam? Não sei dizer. Só sei que a luz do sol ou o brilho do luar sempre me confortam e me fazem acreditar que, em breve, encontrarei exatamente o que eu procuro, e vou saber exatamente quem eu sou.
Descreva um sonho marcante que você teve ultimamente.
Um sonho interessante: eu me encontro em uma praia – sei que é uma praia porque estou no alto de uma duna, descendo, escorregando. Venta e a areia amarela e fina se confunde com a maresia. Na descida, ainda no alto da duna, observo uma figura ao longe, sentada, tentando se proteger da tempestade de areia. Olho abaixo e observo outras duas figuras na beira da praia, que também se protegem do areal. Não consigo ver o mar, pois a tempestade e a maresia não permitem. Acordo. Meu coração me prega peças e dói. Sonhei isso em 2008.
Como você interpreta esse sonho?
Naquela época, eu pensava bastante sobre o que era a felicidade para mim. Tinha dúvidas sobre a felicidade estar ligada a bens materiais, ou ao equilíbrio intelectual, emocional, psicológico, profissional. Pensava em amores impossíveis. Estou ciente de que eu sou uma boa pessoa, mas por algum motivo, algum tipo de bloqueio mental, naqueles dias, eu não me permitia aceitar isso e seguir em frente. Aquele sonho me ajudou bastante no sentido de me deixar aflorar, a perceber que é preciso desapegar de tudo para poder viver bem. O desapego não é uma rejeição: é uma forma consciente de aproveitar cada momento, cada instante e cada situação com a mais profunda, sincera e explosiva intensidade. Ninguém pode se apegar ao tempo, porque seria inútil: o tempo nos devora, é essa sua função. Devemos viver os segundos e minutos intensamente, e aproveitar de maneira profunda as alegrias da vida. E também vivenciar as tristezas, porque sempre aprendemos com elas.
De que forma você sente a paixão em sua vida?
O que será, qual será o sentido da paixão? Ou os sentidos das paixões? As paixões terão que ter sentido, ou será que o sentido é a morte da paixão? Nunca há motivo nenhum para se apaixonar. O único motivo é você se sentir vivo. Viver uma paixão é algo bom, mas sentir-se e saber-se amado e correspondido, é que faz a conexão com a vida. Cartola diz numa música “nós somos dois perdidos”. A paixão só tem sentido nisso: na perda, na perda da razão, das estribeiras, nas atitudes loucas e impensadas, impulsivas. A paixão tem caminhos que desconhecem a razão. Por razão, eu não teria nascido. Nós não teríamos vivido. Não há do que se arrepender, nunca. Apenas deve-se consentir com o “destino”. Muito além do jardim, “a paixão é um universo em que razão não podes ter” (isto é um verso de um grande poeta, meu amigo). A vida em si só faz sentido quando você sonha mais, muito mais. Não se satisfazer com os sonhos loucos da noite é acreditar sempre mais no amor. A confusão faz parte da vida. Então, por que desejar outra coisa? “Se ela virar minha cabeça, eu viro a cabeça dela”. Elas por elas! O amor consiste em troca consentida de fluídos corporais. O melhor de tudo é você ouvir o riso de alguém por quem está apaixonado toda vez que fala com essa pessoa. Paixão é você fazer rir a quem você ama. E mais, amar ouvir o outro rir e sorrir. Amar sua mente: estou apaixonadamente.
Você acredita em “inspiração”?
Eu sou um escritor intuitivo. Sempre me pergunto “por onde começar a escrever, afinal?”. Não sou nenhum Dostoiévsky, estou consciente disso. Sou apenas um André qualquer, vagamundeando de déu em déu, sem destino e incerto da maioria das coisas, com pigarro e mil ideias vagas na cabeça, escolhendo destinos perdido numa rodoviária, imaginando que ao invés de Ponta Grossa, eu deveria estar em Linhares, ou em Córdoba, ou em Aracaju, ou em Nova Iorque... Escrever pra mim é uma forma de responder – ou tentar responder – à pergunta que me atormenta desde quando eu tinha seis anos: será que eu vou realmente, finalmente, romper as velhas estruturas que me cercam e explodir, me lançar como bólide rumo ao infinito? No entanto, tenho que pagar as contas, e percebo o quanto isso é ridículo. Eu sou um boêmio que gosta de rabiscar cadernos em branco, apenas isso. Na verdade, ao invés de “inspiração”, penso que é sempre possível escolher fazer o que se faz, e eu sempre acredito que muitas coisas que eu deveria fazer, farei finalmente. Uma boa fonte de inspiração é o dinheiro.
O dinheiro não vilaniza a escrita?
Pela primeira vez em minha vida, em 2011, eu consegui ser pago por coisas que escrevi. Fiquei muito feliz, porque, não sou hipócrita, essa sociedade é capitalista e nós precisamos de dinheiro se quisermos ir à Índia meditar. Não acho que o dinheiro vulgarize ou vilanize nada. Quem vulgariza ou vilaniza é você. Se você usa o dinheiro da escrita para se divertir de forma vil e vulgar num puteiro, a escolha é sua. Se usa para comprar um livro, ou assistir um concerto de Mozart, você potencializa positivamente o uso do dinheiro. Eu gosto de ser pago, e não sou fã de dar de graça a única coisa que eu posso vender. E outra, meus heróis literatos são todos vilões: Burroughs, Bukowski, Lima Barreto, Caio Fernando, Allen Ginsberg, Genet... uns canalhas imorais. Eu sempre quis ser como eles.
Para encerrar, o que você pensa que pode se tornar sua vida daqui pra diante?
Assisti há uns tempos atrás o filme “A estrada”, de Fellini, com Giulietta Masina e Anthony Quinn. Que filme belíssimo! Uma metáfora da vida e das situações humanas, demasiado humanas. Eu já havia visto o filme há uns 5 anos, e pude revê-lo com mais serenidade, e pensar que várias vezes eu agi como Zamparò, e de certa forma, acabei como ele, no fim da estrada, quando já não restava mais nada a não ser uma praia deserta e a noite escura, as ondas do mar, as areias e as lágrimas. Quem não se sentiu assim, uma vez na vida? Mas eu aprendi, e hoje me sinto capaz de compreender isso e não me deixar abalar tanto pelas amarguras que surgem volta e meia no meu peito de aço... Eu gosto do palhaço, mas o pior palhaço é aquele que é palhaço para si mesmo. É impressionante a força que um filme possui e a quantidade de interpretações possíveis, e também o que o tempo e os novos contextos, as novas relações, podem fazer com suas interpretações daquilo que há pouco parecia terrível, e de repente, se torna banal. Meu passado é um rio maldito, mas eu sou André, estou aqui, agora, hoje, e tenho uma vida nova, inteiramente nova, diante dos meus olhos. Num certo sentido, o nível de consciência  em que você se encontra  permite que você tome conta total de todos os seus atos. É para isso que eu estou trabalhando. Nunca estive tão tranqüilo, e espero que isso continue e eu possa conquistar coisas boas, para com elas, fazer coisas boas, também, para todos os que estão do meu lado. A solidão pode ser amarga, às vezes, mas não há nada melhor para que você consiga compreender a liberdade e a necessidade de sempre seguir em frente.  Acho que é isso. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Caranguejos com cérebro: 15 anos sem Chico Science



Depois do terrível evento social de ontem, o velório do jornalista Victor Folquening, um prodígio da sua área, morto antes dos 40, de maneira estupidamente trágica num acidente de trânsito quase banal em Curitiba,  hoje as "redes sociais" me fazem recordar que faz 15 anos que morreu Francisco de Assis França, o Chico Science. 
Eu me lembro com tristeza daquela noite de 1997, véspera de Carnaval, em que eu estava trabalhando/ aventurando num bar da Lagoa da Conceição, no verão de Floripa e tendo a meu favor o elã dos 20 anos, quando logo no início da noitada, o DJ da casa chegou e disse: "avisa a galera que o Chico Science morreu". Minha reação foi parecida a de quase todo mundo da minha geração que se ligou naqueles caranguejos com cérebro, vindos do distante e até então mítico Recife, para a afirmar a força viva, jovem e criativa da música brasileira: espanto, surpresa e tristeza. Como assim, "Chico Science morreu"? Na véspera do Carnaval, ainda? No mínimo, uma piada de mau gosto...
Lembro-me de ter ficado extremamente triste, ainda mais porque, pouco tempo antes, Chico e a Nação Zumbi fizeram um show para alguns gatos-pingados no extinto aeroanta em Ponga Trossa e... eu não fui! Nunca me redimi completamente do fato, nem quando a Nação Zumbi, uns 10 anos depois, tocou novamente em PG, num show memorável - desta vez, eu estava presente, mas aquela falta nunca será completamente sanada. 
Nunca houve dúvidas de que Chico era o maior nome da música brasileira nos anos 1990. Sua música e suas ideias eram a resposta perfeita para quando meu pai desfazia em tom de piada das "gerações coca-cola", perguntando "quem é tão marcante agora, que possa se comparar aos Beatles, Pink Floyd, Roberto e Erasmo, Chico Buarque, Elis Regina, Raul Seixas? Tua geração é pobre musicalmente". O aparecimento de Chico Science e a Nação Zumbi veio para nos redimir e me dar a resposta adequada ao conflito de gerações, Foi legal ouvir meu pai admitir "- Sim, esse rapaz é bom". E ele também ficou realmente chateado com a morte do cantor.
O empobrecimento da MPB talvez no atual momento chegue ao seu extremo mais radical, com o lixo cultural que nos é imposto goela abaixo como óleo de rícino e vendido como "música" ou "fenômeno musical". Nem vou citar nomes, porque não quero macular meu texto com o baixo-espiritismo dos íncubos sem cérebro que  se apresentam como "músicos" e tomaram conta do ambiente musical brasileiro para chafurdar e submeter nossos ouvidos aos dejetos de sua mediocridade. 
Só sei que Chico Science faz muita falta, e cada vez mais, em especial quando penso que sua carreira meteórica, seus dois discos gravados, poderiam ter sido lançados semana passada. A força é igual. Chico e o movimento que ficou conhecido como Manguebeat influenciaram definitivamente a música, a poesia, a moda, o pensamento daqueles que, como eu, tinham 20 e poucos anos entre o fim do século passado e o início deste século de incertezas. Para mim, sempre foram uma referência, uma influência que para sempre vou carregar. Tenho muitas saudades. 
Uma vez, perguntado sobre o que mais amava em sua terra, ele respondeu: "A vista do Recife a partir de Olinda, e a vista de Olinda a partir do Recife". Ironicamente, ou talvez como um louro que os deuses somente oferecem para os verdadeiros iluminados, Chico Science morreu exatamente na ponte que une Recife a Olinda, quando se preparava para participar do pré-carnaval de Olinda. 15 anos se passaram desde então. Hoje, especialmente, ainda afetado pela morte de Victor Foquening, que também era uma referência e uma influência para minha geração, carrego a amarga sensação de que o tempo implacável e cruel está nos tornando em velhos e saudosistas, e não há nada que se possa fazer a respeito. Tento lutar contra isso, mas o duro é que nem mesmo podemos nos consolar com a genialidade musical de Chico Science, ou as ironias inteligentes e a visão aguda de Victor. 
Os deuses são irônicos e cruéis com os pobres humanos. 
Nos presenteiam com uma mão e retiram implacavelmente com a outra. 

Nossa vingança é a memória.



A CIDADE (Chico Science & Nação Zumbi)

O sol nasce e ilumina
As pedras evoluídas
Que cresceram com a força
De pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam
Vigiando as pessoas
Não importa se são ruins
Nem importa se são boas
E a cidade se apresenta
Centro das ambições
Para mendigos ou ricos
E outras armações
Coletivos, automóveis,
Motos e metrôs
Trabalhadores, patrões,
Policiais, camelôs
A cidade não para
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não para
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade se encontra prostituída
Por aqueles que a usaram
Em busca de uma saída
Ilusora de pessoas
De outros lugares,
A cidade e sua fama
Vai além dos mares
E no meio da esperteza internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos
A cidade não para
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não para
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
Eu vou fazer uma embolada,
Um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado
Bom pra mim e bom pra tu
Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus
Num dia de sol Recife acordou
Com a mesma fedentina do dia anterior.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Gatos



Estou saindo de um prédio antigo, provavelmente meu antigo colégio de infância. Ando pela calçada à minha esquerda, e me deparo com uma bacia de plástico, grande, onde estão dispostos vários pedaços de carne, filés que nadam, aparentemente assados. Tem um aspecto repugnante, e eu não quero comê-los. Acho mesmo bastante estranho encontrar uma bacia com carne assada no meio da rua. Ando mais alguns passos, sempre pela mesma calçada, e me deparo com um gato branco, felpudo, bem bonito, que brinca com alguma coisa junto a um poste. Observo que, apesar de ser um gato realmente bonito, é um filhote e tem olhos azuis, ele está muito magro, esquálido, aparenta estar com fome. Eu o pego e levo até a bacia de filés, e ele se delicia com um bom bife. Eu fico feliz por dar de comer ao bichano. Penso em levá-lo para casa, mas lembro que tenho um cão e desisto da ideia.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Lições que aprendi em 2011, ou confissões de um ser em transformação


Nunca fui muito de me emocionar com os apelos sentimentais do fim de ano.
Pra falar a verdade, acho bastante forçado o clima natalino, que de repente, parece tomar conta das pessoas e fazer com que vizinhos que nunca se falam, parentes que jamais se visitam, colegas que não se suportam, passem a desaguar de forma melosa e quase histérica os "votos" de "fraternidade", "paz", etc etc etc.
Na verdade, para mim vale muito mais você dizer o que sente pelas pessoas com quem convive no dia a dia, e com ações, com práticas, com atitudes que demonstrem em que realmente acredita. Deixar para o fim do ano, pode ser tarde demais. Ou parecer hipócrita e superficial.
Hoje é a data em que um de meus mais queridos amigos, meu padrinho e mentor, faria 65 anos. Ele se foi há três e eu sinto sua falta todo dia, especialmente quando caminho pelas ruas da cidade ao por do sol, pensando em quanto eu gostaria de dividir dos meus sonhos e projetos, e no quanto eu gostaria de ouvir seus conselhos novamente, nem que fosse por uma única vez.
Mas isso é impossível, e eu tenho que me conformar.
O ano passou rápido, e em alguns momentos, eu me senti bastante confuso com minha vida e os acontecimentos em torno dela. Entretanto, 2011 foi para mim bastante intenso. Em janeiro, eu ainda morava em Belo Horizonte, e tinha ainda pouco mais de 6 meses de contrato, e estava realmente na expectativa do que viria a acontecer. O tempo passou, meu contrato acabou e eu tive que decidir o que faria. Acabei voltando para meu bunker em Ponta Grossa, onde me encontro. Confesso que retornar à casa dos pais aos 35 anos de idade, a princípio, me pareceu uma derrota. Não pela família, com quem me sinto plenamente integrado e à vontade, mas especialmente porque eu realmente não esperava ter de voltar pra cá tão cedo. Eu me sinto muito bem quando estou em Belo Horizonte, gosto muito de Minas Gerais e tinha a expectativa de passar mais alguns anos por lá. E de repente, eu cheguei de volta justamente no início do mais frio inverno dos últimos dez anos. Foi realmente difícil. Pra piorar, estava sem grana, e ainda tive decepções  profundas com velhos amigos, a quem eu muito estimava - e ainda estimo, pra dizer a verdade-, mas que me deixaram realmente pensativo sobre o que minha postura, meus pensamentos, minhas ideias poderiam significar de verdade para as pessoas a quem eu sempre considerei meus fiéis parceiros e apoiadores. 
De repente, por conta desse retorno conturbado, o que eu fazia ou pensava parecia não ter o menor sentido, nem para mim nem para as pessoas que eu esperava que compreendessem o sentido das coisas. Tudo isso, sem dúvidas me deixou bastante inseguro. Minha reação foi aceitar, uma vez mais, as cismas do destino, e tentar manter a racionalidade, e tentar enviar, na medida do possível, boas vibrações às pessoas. 
Relaxei. Lembrei que a vida é um sonho, por vezes um mar revolto e aparentemente turvo, mas que logo depois se torna algo límpido, azul-turquesa e cheio de corais coloridos. 
O exercício da compaixão, aliado a uma firmeza em relação ao que eu realmente acredito, seja como escritor, educador, ciclista, músico, agitador cultural ou como um simples ser humano, nem melhor nem pior do que qualquer outro, com suas virtudes e defeitos, foi o que me manteve equilibrado. Logicamente, contei com o apoio de pai, mãe, irmã, irmãos, sobrinhos, além de amigos que se mantiveram próximos, além de novas amizades que se tornaram caras e essenciais, e também o apoio fundamental de minha querida namorada que me aguenta e que não desistiu de mim - e ela teve várias oportunidades e mesmo motivos para fazê-lo, mas eu agradeço de coração por ela não tê-lo feito. 
O fato é que o ano passou, e eu me vi repentinamente inacreditavelmente tranquilo. Talvez mais sereno do que eu já estive em todas as minhas quase 36 primaveras - a caminho das 96.
O distanciamento de antigas relações acabou se revelando algo bom, porque me obrigou a uma reflexão profunda, em que eu pude compreender que também cometi erros e posso até mesmo ter ofendido e magoado pessoas sem sabê-lo ou sem a intenção disso. Também me provocou uma experiência inédita: a sensação de, ainda que me sentindo um tanto injustiçado, saber manter o equilíbrio para evitar traumas maiores e coisas de que eu pudesse me arrepender no futuro. E ainda por cima, me trouxe a possibilidade real de avaliar aquilo que eu espero de amizades, e aquilo que meus amigos podem esperar de mim. Pra finalizar, toda essa turbulência abriu-me a perspectiva de renovação de contatos, ideias, pensamentos, e sentimentos, e isso foi também um ponto muito positivo.
No mês de agosto, comecei a fazer algo que eu realmente gosto: dar aulas para adolescentes. Trabalhei num cursinho pré-vestibular, numa escola confessional, e acho que desempenhei bem meu trabalho. Os meninos e meninas renovaram minhas energias. Eu abandonei meus preconceitos sobre colégios confessionais. Mas só pude realizar esse trabalho porque, de repente, também, percebi que há pessoas que confiam em mim, e eu sou grato a elas pela oportunidade de corresponder a esta confiança.
Também por conta de pessoas que conhecem meu trabalho e minha ideologia como educador, tive a oportunidade de publicar quatro trabalhos para uma editora de renome nacional, algo que me deixou bastante feliz, porque pela primeira vez, tive certeza de que meus pensamentos e minhas posições a respeito da educação humana, contemporânea e pró-alunos puderam ressoar de forma incisiva pela blogosfera a fora. E ainda no segundo semestre, depois da minha volta à terra natal, participei de um filme premiado, toquei pandeiro num show em homenagem a Pixinguinha e Benedito Lacerda - outra vez, através da confiança em mim depositada por amigos, músicos de altíssimo gabarito e sensibilidade, que me permitiram participar de um momento realmente brilhante ao seu lado, ao qual eu só fiz parte por estar em PG.
E, como se não bastasse, ganhei de presente de Natal de um casal de amigos fiéis uma bicicleta!
Depois de tudo isso, olhando para trás, reflito que a ansiedade que tomava conta de meus pensamentos, ao final do primeiro semestre deste ano de altíssimas emoções, se dissipou, e acabou se tornando uma grande expectativa sobre o que vou fazer, quais serão meus projetos, quais ideias vou por em prática nos próximos meses.
As lições que eu tiro disso, e que vou procurar tornar minha regra geral de comportamento em 2012: humildade, jamais ser arrogante, ser generoso, fiel, acreditar em si mesmo, sem jamais duvidar dos outros, e sobretudo, agradecer pela vida nos ensinar que nunca nada está perdido, e mesmo aquilo que parece ruim, pode no final proporcionar coisas boas.
Espero conseguir praticar a fraternidade, a generosidade, a sobriedade, a compaixão na maior parte do tempo, em 2012. 
E espero que este blog continue a ser, junto de bicicletas, canções, fotografias, ideias e música, um instrumento para que isso se concretize.
Feliz ano novo a todos os que acompanham meus Caldos de Cana!

domingo, 4 de dezembro de 2011

SÓCRATES BRASILEIRO

A morte de alguém como Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, ídolo de gerações, dono de um estilo único, genial, que sabia ser alegre e cerebral ao mesmo tempo, é sempre comovente.
Um dia triste para o povo brasileiro. Perdemos em referência o que o Doutor nos oferecia pelo exemplo de sua cultura, seu pensamento, sua auto-crítica. Fatalidades ocorrem, mas não deixa de ser irônico perder Sócrates no justo momento em que a luta contra a burrice talvez devesse representar nossa maior batalha.
O Panteão do Futebol Brasileiro recebe outro Herói: onde já figuram Domingos da Ghia, Leônidas, Garrincha, vem completar a cena a imagem do Doutor Sócrates.

sábado, 19 de novembro de 2011

Gotas poéticas de Minas Gerais

Falar da obra de um amigo é sempre um risco. Vou parecer partidário, e minha amizade vai ser tomada ao pé da letra como atitude parcial ao defender uma obra que, talvez para olhares mais críticos e distanciados, seria considerada com menos brandura. 
Porém, assumo o risco e afirmo o seguinte: Milton Fernandes é um grande poeta. 
Produzir, coletar, publicar e assumir a própria poesia, nestes anos de mares revoltos, em que obras autorais são consideradas peças de museu, é sobretudo, atitude corajosa - mais ainda num país como o nosso, que não obstante os avanços econômicos e estruturais dos últimos anos, ainda é um país de analfabetos funcionais, de pessoas superficiais e alienadas, a quem o último dos interesses estaria ligado a um livro de poesias.
Mas o que dizer das "Gotas" de Milton Fernandes, senão que nos impressionam pela leveza, pela sutileza, pelo caráter e pelas opções poéticas e estéticas, explícitas desde a capa - também trabalho autoral de Milton, esse malandro que além de poeta é também designer, músico, fotógrafo e projetista gráfico de destaque no mercado editorial independente de Minas Gerais (se você acha pouco, procure saber mais sobre o mercado editorial mineiro e compreenderá a importância de trabalhar com livros em Minas). E é difícil, realmente, separar o designer, fotógrafo e projetista, do menino que é pai do menino Theo, livre e brilhante desde o berço, e do menino-marido da bela Tassiani, ela também uma esteta da linguagem, uma amante do belo e, fundamentalmente, minha confidente nos últimos 15 anos - além disso, junto com Milton, foram e são meus protetores nas terras de um Belo Horizonte. Como podem perceber, este é o relato passional de um amigo leal. E nada mais prezado por mim do que a lealdade. 

Mas vamos à poesia: o que Milton Fernandes pretende demonstrar desde a apresentação gráfica do livro é a tentativa de fundir uma ideia central com as partes que a compõem, numa unidade entre estrofes cujo conjunto aponta para uma significação comum, porém ponteada por significações in(ter)dependentes em cada estrofe. Na poesia de Gotas observa-se, tal qual uma chuva, a concatenação significativa de uma unidade diluída no conjunto: assim, a totalidade da chuva-poesia nos diz algo, que observado individualmente em cada gota-estrofe, subdividida entre estrofes, versos e palavras, adquire forma significativa tão forte quanto o conteúdo universal do poema. 

De maneira aleatória, escolhemos o poema "amor? amor!" (pág. 36):

amor? amor!
que medida? pare.
mande buscar 
sua camisa 
suada de sangue

da batalha
pelo último pote
do amor que lhe resta;

mas não se esqueça,
sinta de verdade

mesmo que haja dúvida
um dia
seu pulso 
lhe confirmará

Aqui, reside a ideia da medição do amor, pautada pelo paradoxo em que a dúvida se expressa na certeza,  ambas firmadas entre pacto sanguíneo de amantes que desejam a confirmação do que o pulso já dá como verdadeiro desde o início: a certeza do amor é marcada pelas incertezas do sangue escorrido, das batalhas, da sede pela última gota do pote. E essas batalhas, sede e última gota são os sinais mais certos de que há amor. A ideia do poema se expressa de forma clara em sua totalidade unitária.
Entretanto, observem cada estrofe separadamente, e teremos não um, mas quatro poemas curtos, cuja intensidade não se quebra, mas se aprofunda com a separação do todo:

         I                                           II                                    III                                  IV
amor? amor!                           da batalha                        mas não se esqueça     mesmo que haja dúvida
que medida? pare.                   pelo último pote              sinta de verdade           um dia seu puso
mande buscar                          do amor que lhe resta                                         lhe confirmará
sua camisa
suada de sangue.

Cada uma destas estrofes deixaria Leminski orgulhoso com o poder fractal da poïesis .
E assim, com todas as outras. 
E assim, cada poesia, com o livro inteiro!
Não sei se isso é uma inovação, ou se a sutileza sagaz do poeta mineiro - nascido em Sete Lagoas, porta de entrada do sertão, o que pode explicar muito desta visão universal-fractal presentes em seu fazer poético - torna sua escrita atrativa. Pra dizer a verdade, nem sei se realmente ainda há espaço ou motivo, em nosso tempo, para sutilizas e genialidades individuais. Acredito mais na força subjetiva e inconsciente que une a humanidade, e pode provocar em indivíduos separados por culturas, línguas, religiões, etnias e espaços distintos e em situações distintas, a mesma força criativa,  materializada em objetos significativamente muito próximos.
O que sei é que a poesia em "Gotas" nos toca, e nos faz acreditar na corrente que une em uma singeleza poética almas de vários cantos. Este fazer poético sobrevive, indiferente aos apelos mercadológicos ou à diluição cultural que pretende tornar toda a humanidade em massa insossa e com pouco a revelar, ou a propor, subjetivamente. 
Obrigado aos poetas, que ainda nos fazem ter uma gota de esperança no peso que um verso pode ter como antídoto para esse mundo insano.

Em tempo: se você quer ler o livro, escreva para o Milton: www.miltonfernandes.com, ou adicione sua página no fêicebúq: http://www.facebook.com/profile.php?id=100000659754693.
Vale lembrar também que o livro "Gotas" será lançado oficialmente hoje, na livraria Café com Letras, em Belo Horizonte, com direito a sessão de autógrafos do autor. Se você está em BH, dá um pulo aí. Maiores informações: http://www.cafecomletras.com.br/lancamento_livro_05

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Choperia do Tito: finalmente, um filme trata da história de uma das mais tradicionais choperias do Brasil

Até que enfim, um filme sobre a Choperia do Tito!
Graças à Misto Quente Produções, foi produzido o primeiro documentário sobre a mais tradicional choperia do Paraná, que figura entre as mais tradicionais do Brasil: "Alma embriagada" mostra em 20 minutos o cotidiano de um dos mais emblemáticos estabelecimentos do país. A diferença entre o Tito e suas co-irmãs Pinguim, em Ribeirão Preto, Johan Sehn, em São Paulo, ou o Amarelinho, no Rio de Janeiro, é que essas últimas, ainda que permaneçam como tradicionais pontos de encontro e sirvam excelentes chopes, não preservam o que faz do Tito um lugar único: em Ponta Grossa, o chope ainda é servido tradicionalmente, a partir de seu armazenamento numa chopeira de 50 anos, sem uso da eletricidade, com duas serpentinas de cobre com 30 metros de comprimento.
A história da choperia se confunde com a de seu proprietário, Tufi Cury - conhecido como Tito. Aos 85 anos de idade, ele foi funcionário do Bar da Deliciosa, fundado na década de 1930. Entrou na choperia em 1942, e se tornou seu proprietário alguns anos mais tarde. A choperia mudou de endereço uma única vez, em 1956, mas trouxe do antigo ponto a máquina de chope, as mesas, cadeiras, prateleiras, espelhos, copos, cortador de frios e o caixa, que continuam preservados.
Hoje, a choperia pertence aos netos de Tufi Cury, os irmãos Anderson e Hudson Wiecheteck, que na década de 2000 abandonaram sua vida em Manaus para assumir a gerência da choperia, e assim, salvaguardá-la do que poderia significar seu fim. Não foram poucas as tentativas de desalojar o Tito de seu lugar tradicional, por conta da vampiresca especulação imobiliária que já destruiu 90% da memória da cidade. A última contenda teve que ser resolvida na justiça, que garantiu a permanência do bar no seu local tradicional. Além de terem assumido o local, a presença dos irmãos trouxe ânimo ao Tito, que de segunda a sexta-feira está ali, a partir do meio-dia até às 16 horas, servindo chopes e contando suas boas histórias com a simpatia e sua fina ironia de sempre.
A produção de "Alma embriagada" é fundamental para o processo de reconhecimento local e nacional deste bar, que se confunde com a cultura pontagrossense, e também com a história dos bares brasileiros no século 20. Não tenho dúvidas de que "Alma embriagada" será de grande importância para o que sempre considerei fundamental: o tombamento da Choperia do Tito como patrimônio histórico, material e cultural do Brasil.
Faço um convite a todos que ainda não conhecem, que venham a PG beber o melhor chope do Brasil. Alguma dúvida? Assistam "Alma embriagada" e vejam por si mesmos.
parte 1:

Parte 2:

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Professor: profissional da educação ou abnegado?

a questão é: paga-se mal e exige-se dos professores uma postura monástica. a ideia do "dom" para a educar tem origem exatamente no fato de que a educação ocidental, de uma forma ou outra, sempre recebeu influência religiosa. entretanto, para mim isso apenas justifica a hipocrisia daqueles que exigem dos mestres pura abnegação, acima de tudo, a ponto de a sociedade ficar surpresa quando lembramos a todos que os professores somos profissionais da educação
sem menosprezo pelo conceito, porém jamais realizei meu trabalho de maneira apenas abnegada ou altruísta: mais do que isso, sempre me vi como profissional, responsável por um dos serviços essenciais a qualquer sociedade organizada, e procuro ser valorizado por isso. é bem simples, até.
é claro que não entendo a docência como atividade "superior", nem mais nem menos essencial que nenhuma outra atividade exercida por outras classes profissionais admitidas em nossa sociedade - inclusive a classe discente. isso tampouco significa que eu esteja depreciando a emoção, a sensibilidade, a visão subjetiva e artística, parte do que considero o diferencial da profissão de educador: o contato humano, a troca, o aprendizado e a dedicação constantes que a profissão exige. 
portanto, penso que se a sociedade realmente crê necessitar de boas escolas, bons alunos e bons professores, pois compreende que educação de qualidade significa desenvolver-se e evoluir econômico-cultural-social-artístico-musical&ecologicamente enquanto sociedade, então, é justo que valorize o trabalho dos seus profissionais educadores e as condições da educação que quer para si mesma.
infelizmente, observamos muitas instituições educacionais, sejam públicas ou privadas, laicas ou confessionais, ora tornadas reféns de uma visão equivocada, anacrônica, burocratizante, baseada na auto-punição e na delação, que cerceia os espaços, deprecia e distorce todo pensamento, modelo, proposta, leitura ou comportamento em contrário. não se discute educação nas escolas. não se permite às escolas a diversidade. 
há a imposição de modelos e esquemas prontos e canônicos, contra os quais o questionamento é visto como heresia. acontece, senhoras e senhores, que hoje é dia 17 de outubro de 2011. estamos no século 21. tais conceitos foram - ou deveriam ter sido - há muito superados. 
é preciso deixar de vez a idade das trevas da educação. é preciso pensar em projetos que permitam à sociedade uma educação de possibilidades, baseada em conceitos como: educomunicação, equações de primeiro e segundo graus, ensino da literatura e da linguagem, das línguas portuguesas, brasileiras, africanas&estrangeiras, os binômios ler-escrever, interpretar-produzir, arte-música, pedagogia-esporte, filosofia-cinema, história-arqueologia, arquitetura-urbanismo, mobilidade urbana-transporte, física-astronomia, gêneros-sexualidades, sexismo-violência, tolerância-intolerância, censura&opressão, e o que mais couber aqui. 
a ausência de debate, por sua vez, faz parecer natural que haja câmeras nas salas de aula, policiais no câmpus, detectores de metais, salários baixos, bibliotecas desorganizadas e de acesso restrito e direcionado, fragmentação do conhecimento, hierarquização autocrática, desentendimentos entre pais, alunos e mestres, difusão de preconceitos e desdéns, uniformização, padronização et coetera, et coetera, et coetera. 
a apatia é o que nos leva a achar tudo isso normal. 
é lógico que a grana é muito importante. é o primeiro passo para um profissional se sentir valorizado na sociedade capitalista em que vivemos. mas não faz sentido trabalhar e lutar só por grana. nós precisamos urgentemente de um pacto social em nome da melhoria e democratização de fato dos nossos índices educacionais. deve ser responsabilidade da sociedade proporcionar melhores condições de educação aos seus membros e melhores condições de trabalho aos seus professores. mas isso só pode começar a partir da tomada de consciência de cada um de seus membros, que individualmente deve se sentir responsável pelo processo educativo. inclusive os professores: precisamos ser mais críticos, menos passivos, mais corajosos do que temos demonstrado ser. inclusive para deixar o corner e não sermos mais acuados por falsas promessas, descaso, desinteresse, desmandos. é preciso também que a sociedade sinta vergonha pelo modo como trata sua própria educação.
as mudanças são coletivas, mas dependem de transformações individuais. nossa postura enquanto sociedade que deseja educar e se fazer educar, de forma autossuficiente, autônoma, independente, crítica, que anseia por se consolidar como protagonista da evolução da humanidade, em nosso século e nos séculos vindouros, é o que deve nortear nosso desejo de educação. 
isso aconteceu com outros povos, ao longo da história. por que não poderia acontecer conosco?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A humanidade perde um de seus maiores gênios









"Você não conseguirá ligar os pontos olhando para frente; só poderá fazê-lo olhando para trás. Então, você deve crer que de alguma forma, os pontos vão se conectar em seu futuro."

Steve Jobs 
1955-2011